Retornando à quietude
By
Judith Lasater
tradução:Eloisa Vargas

Em um mundo carregado de informação,
a prática yogi de pratyahará oferece-nos
um paraíso de silêncio.
Das muitas coisas que já li
sobre Pratyahará,
o texto de Judith Lasater,
instrutora de yoga americana e autora dos livros Relax and Renew (Rodmell,
1995) e Living Your Yoga (Rodmell, 2000) – no Yoga Journal, foi
um dos que mais me revelou a verdadeira natureza deste “anga”
(membro, braço) do Ashtanga Yoga de Patanjali. Em linguagem simples e
descomplicada acredito que será de fácil entendimento para praticantes
iniciantes e de profunda inspiração para os que já trilham a mais
tempo os caminhos do Yoga.
Namaste
Eloisa Vargas
Durante meus primeiros meses de aula de Yoga, o professor nos ensinou
profundos backbends (retroflexões curvando a coluna para trás) como
parte do primeiro passo da Saudação ao Sol. Não apenas nos encorajou
a dobrar para trás profundamente como ele também nos ensinava a dropar
( deixar cair) a cabeça para trás tão longe quanto pudéssemos. Numa
destas aulas, uma aluna desmaiou no meio do movimento. Felizmente ela não
se machucou quando caiu no chão. Eu fiquei muito intrigada quando
percebi que alguns dos meus colegas perceberam aquele desmaio não como
um problema físico e sim como algum evento “espiritual”.
Mas
eu suspeitava que esta abordagem “espiritual” para o evento estava
totalmente errada pois estes desmaios súbitos – estas retiradas do
mundo – não podiam ser atribuídas ao espírito e sim a algo
simplesmente fisiológico. Pessoas provavelmente desmaiam porque
colocando a cabeça para baixo podem momentaneamente bloquear as artérias
vertebrais do pescoço, reduzindo assim o suprimento de sangue e oxigênio
para o cérebro. Hoje percebo que meus colegas estavam fazendo confusões
acerca do significado de pratyahara – sobre qual o significado
correto para a “retirada dos sentidos” do mundo.
No
Yoga Sutra de Patanjali – o mais antigo e reverenciado tratado para a
prática do Yoga – o segundo capítulo versa sobre os ensinamentos do
Sistema do Ashtanga Yoga (o Yoga dos oito membros). Este sistema é
apresentado como séries de práticas as quais iniciam com “membros
externos” como preceitos éticos movendo-se a seguir para os
“membros internos” como meditação.
O quinto passo ou membro do ashtanga é chamado de “pratyahará” e
é definido como “ a consciente retirada da energia dos sentidos”.
Quase sem exceções os praticantes de Yoga são confundidos com este
membro. Fundamentalmente parece que compreendemos a base ética do
ashtanga nos ensinamentos como Satyá ( a p´ratica da verdade), e os
ensinamentos físicos básicos como a prática dos asana (as posturas-
esta palavra não tem plural), e pranayamá ( o uso da respiração para
afetar a mente). Mas, para a maioria de nós, a prática de pratyahará
permanece um mistério.
Um
modo de iniciar a compreender pratyahará em um nível experimental é
focar em uma postura que nos seja familiar, Savasana (postura do morto)
por exemplo. Esta pose é feita deitado em supino ( costas no chão)
praticando um relaxamento profundo. O primeiro estágio de Savasana
envolve um relaxamento psicológico. Neste estágio, enquanto buscamos
uma situação de conforto ao corpo, ocorre a consciência dos músculos
que gradualmente começam a relaxar, a respiração torna-se lenta e
finalmente levamos o corpo a uma situação de total entrega. Embora
agradável, este primeiro estágio é apenas o começo de pratyahará.
O próximo estágio de Savasana envolve nosso corpo mental. Conforme os
tratados de Yoga, o ser humano tem cinco níveis ou “corpos”:
1 - o corpo físico,
2- o corpo vital ou prana (nível das energias sutis e seus canais),
3- o corpo mental ( o nível das reações emocionais),
4- o corpo da consciência (a casa do ego),
5- o corpo causal (o nível onde estão as gravações das experiências
da alma ou karma)
Estes
corpos podem ser compreendidos como um aumento sutil de níveis de
consciência. No segundo estágio de Savasana você se retira do mundo
exterior mas não perde totalmente o contato com ele. Esta
“retirada” é a experiência de pratyahará.
A maioria de nós conhece este estado; quando você está nele sente-se
como se estivesse no fundo de uma caverna ou gruta. Você registra os
sons que vem do exterior e os sons que ocorrem em volta mas estes sons não
criam perturbação no seu corpo e na sua mente.
Este estado de “não reação” consciente é
pratyahará. Você continua registrando os impulsos pelos órgãos
sensoriais mas você não reage a estes impulsos. Parece haver um espaço
entre os estímulos sensoriais e a sua resposta. Em linguagem cotidiana:
você está no mundo mas não pertence a ele.
Por
muitos anos eu interpretei os ensinamentos que escutava sobre pratyahará
como se eu necessitasse, literalmente, sair fisicamente do mundo para me
tornar uma verdadeira discípula do Yoga! Isto me causava pânico!
Sempre fui uma pessoa engajada em diversas atividades e bastante ocupada
em estudar terapias físicas para melhorar as instruções em Yoga que
eu dava. Alem disto, sou casada e tenho vários filhos. Angustiava-me o
fato de pensar que se eu não conseguisse me separar de todos estes
envolvimentos e compromissos eu seria uma praticante de Yoga inferior.
Hoje
sinto que não é nada disso. Entendi que a vida envolve interações
com outras pessoas e que freqüentemente estas interações incluem um
elemento de conflito. De fato, nem sempre é necessário estar
interagindo com outras pessoas para entrar em conflito. Posso estar em
conflito sozinha, comigo mesma. Algumas vezes sou tentada a fazer uma
“retirada” para me proteger dos conflitos mas sei que este tipo de
retirada não é pratyahará.
Penso
que para o Ashtanga de Patanjali, pratyahará é algo totalmente
diferente do que uma simples retirada da vida. Para mim, pratyahará
significa que mesmo enquanto participo das tarefas do mundo tenho um
espaço entre o mundo em volta de mim e minhas respostas para este
mundo. Em outras palavras, não importa o quanto eu pratique meditação,
posturas e respiração pois eu agirei em resposta ás pessoas e situações
em volta de mim. O problema não é a resposta que dou aos estímulos
externos e sim o fato desta resposta ter sua origem no impulso, na minha
reação automática ao invés de ter sido fruto da minha escolha.
Ultimamente,
a pratica de pratyahará – como de fato toda a prática do Yoga –
habilitam-me a escolher minhas respostas ao invés de simplesmente
reagir. Eu posso escolher me envolver com alguns estímulos que surgem
no meu caminho ou posso escolher saltar fora e não responder.
A variável não é aquilo que está em volta de mim e sim as escolhas
que faço em como usar minha energia. Se me retiro fisicamente para as
montanhas poderei estar agitando meu sistema nervoso pois poderei estar
gerando pensamentos e acionando reações passadas. Pratyahará não
significa fugir dos estímulos ( o que de fato é basicamente impossível).
Ao invés de fugir, praticando pratyahará, permaneço no meio do
ambiente que gera o estímulo e conscientemente “não reajo” mas
escolho como responder.
Também
incorporo a prática de pratyahará nos asana que pratico. Quando
permaneço fisicamente quieta em uma pose freqüentemente tenho vários
pensamentos. Algumas vezes entro em conflito com a dúvida de permanecer
mais um pouco na pose ou sair. Outras vezes me apanho julgando se estou
fazendo a pose bem ou não tão bem... Nestas vezes, quando percebo que
minha mente está ocupada, pratico pratyahará para retirar minha
energia dos meus pensamentos sobre a pose e foco apenas na pose em si.
Algumas
vezes lembro de praticar pratyahará deste modo e algumas vezes, esqueço.
Mas minha prática de asanas sempre me possibilita a oportunidade de
observar a minha urgência em escapar me retirando da realidade. Este
tipo de retirada não é pratyahará, é simplesmente uma tentativa de
escapar da dificuldade, escapar através de pensamentos.
Parece que uso esta tática muitas vezes durante o dia. Escapo para meus
pensamentos durante encontros que me aborrecem, telefonemas indesejados,
tarefas necessárias mas repetitivas. Sem a prática de pratyhará,
estas fugas ou retiradas habituais acabam por me afastar de mim mesma
– o oposto do efeito da prática espiritual que me traz cada vez mais
próxima da minha verdadeira natureza.
Outro modo para praticar pratyahará é prestar atenção nas minhas
necessidades de buscar estímulos externos como escape. Tento observar
quando quero escapar da minha vida buscando alta estimulação
ambiental. Por exemplo: algumas vezes quero ir ao cinema para escapar e
em outras vezes, quero ir ao Shopping. Ir ao Shopping ou ao cinema não
é o problema em si. O uso destas atividades como escapatórias pode
interferir com a minha intenção de estar conscientemente presente em
todos os momentos.
Quando
eu era criança, adorava andar de montanha russa. A estimulação calava
todas as outras consciências. Agora que sou uma praticante de Yoga,
estou mais consciente da urgência que sinto em afogar meus conflitos
com grandes estimulações. Se posso observar minha tentativa de escapar
através da estimulação, estou usando pratyahará como uma poderosa
ferramenta para melhorar minha vida diária. Nestes momentos inicio a
compreender a diferença entre “retirada consciente” e
“escapada”, entre pratyahará e esquecimento da prática. Aprendendo
a incorporar minha prática de Yoga no dia a dia da minha vida desta
forma é, de fato, desafiador mas é um desafio que dá significado e
direção na minha vida.
Judith
Lasater, Ph.D., P.T., autora de Relax and Renew (Rodmell, 1995) e
Living Your Yoga (Rodmell, 2000) ensina Yoga internacionalmente
desde 1971.
July/August 1999
This article can be found online at http://www.yogajournal.com/wisdom/459_1.cfm
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