Yogasanas
A busca do Infinito no corpo finito

 BKS Iyengar
Traduzido por Eloisa Vargas
 


foto:ekapada kapotasana Patricia Walden

 

O sistema filosófico do Yoga é conhecido como darshanas (espelhos ou percepção direta da Realidade espiritual). Estas percepções estão baseadas na firme fundação da experiência. Infelizmente, a grande e gloriosa tradição de criar fundamentos através da experiência vem sendo esquecida. O academicismo e a habilidade na lógica e no esforço intelectual tomaram seu lugar. Até mesmo o Yoga, que é uma disciplina prática por excelência, torna-se objeto para a filosofia.
 

Algumas destas filosofias abordam o aspecto físico do yoga como algo que não seja importante para aqueles que buscam o “Supremo” criando dúvidas em muitos praticantes ainda que Patanjali, no seu tratado, confira grande destaque para a prática dos asanas. Conforme Patanjali, a maestria em asanas deve ser alcançada antes da prática dos Pranayamas (respiratórios). No Shadana Pada, três sutras são devotados para os asanas e no Vibhuti Pada, são encontradas referências à saúde do corpo (kaya sampat) e realizações físicas ( siddhi).


Muitos textos yogis enfatizam dhyana asanas (posturas meditativas). É igualmente verdade que um texto yoguico como o Shiva Samhita fala sobre 84 lankh ou seja, 100.000 asanas revelando que existem tantos asanas quanto existem espécies no planeta.

É um equívoco descrever um asana como algo que “alonga” uma vez que um asana tem sutis e refinados ajustamentos, não apenas nos membros do corpo como, e principalmente, na estrutura da inteligência e consciência. É necessário treinar e tonificar o corpo para ter força, flexibilidade, resistência, equilíbrio e integração para executar o asana com correção e conforto por um considerável tempo mesmo em uma postura meditativa.
 

Dhyana asanas ou posturas meditativas perfeitas são impossíveis sem que se atinja a perfeição em muitos outros asanas bem como a tonificação do corpo. O valor dos asanas em Yoga é explicado através de Tapas ( disciplina) por Patanjali no Sutra II.43 onde é declarado que é necessário queimar as impurezas do corpo, sentidos e mente para que a alma reacenda a fagulha da divindade contida no interior. Assim, vejo os asanas como uma forma de Tapas que demanda rigorosa disciplina.

Nos dias de hoje, esta rigorosa disciplina transforma-se em “suaves momentos de yoga”. Esta prática suave e casual utilizada para relaxamento, perdeu o critério científico e experimental. Em contra partida, percebe-se  a abundância de livros disponíveis sobre o assunto, livros estes estereotipados e sem a profundidade que a prática exige.
 

Embora os asanas tenham sido aceitos como um método “alternativo” de medicina em função dos  benefícios já conscientizados pelas pessoas, não podemos esquecer que cada asana é pleno de profundo conhecimento científico do corpo e da mente, é arte e filosofia atuando juntos a partir do exterior penetrando os vários níveis interiores do corpo para alcançar o governante, o Atman (espírito).

Asanas, como uma ciência, tratam com a saúde e perfeição do corpo e ajudam a descobrir as diferenças entre o corpo e a mente com o objetivo de manter o “eu” em estado de puro cristal. Plantas e arvores saudáveis produzem  bons frutos e flores e a jardinagem foi desenvolvida para cuidar que elas cresçam assim. Similarmente, asanas purificam os sentidos da percepção e os órgãos da ação desenvolvendo harmonia no funcionamento do corpo, mantendo o sistema nervoso livre de bloqueios. Não podemos esquecer que o corpo é o único instrumento que possuímos e que pode ser usado tanto para a vida mundana como para a busca espiritual.

Iniciemos do “conhecido”, do objeto visível que é o corpo antes de explorar o desconhecido de forma a movermo-nos  do concreto para o sutil, ou seja, da matéria para o Espírito.


Os asanas foram criados para corrigir os defeitos da matéria (corpo) e da energia (prana) até que ambos sejam educados para moverem-se através da inteligência e da consciência. A estrutura do asana não pode mudar, cada asana é arte em si mesmo.  Quando o shadaka (aluno) executa o asana, ele o faz com o melhor de si mesmo. É necessário estudar a estrutura de cada asana aritmética e geometricamente avaliando a dimensão e analisando o seu formato até que a real forma seja expressada.

Asanas podem se apresentar na forma de ângulos ou triângulos, retos ou oblíquos, círculos ou arcos, arredondados ou ovais. É necessário perceber todos estes pontos nos asanas pela observação e estudo para depois, agir no campo do corpo e executá-lo na sua glória original. Isto significa total envolvimento do corpo com os sentidos, mente, inteligência consciente e alma.
 

Não é correto manter a execução do asana conforme a mobilidade e flexibilidade do praticante. É necessário manter o treinamento para que o corpo seja moldado e ajustado para o asana. Não é ético fazer a pose apenas para a sua conveniência. Estudos e treinamento constantes são necessários para educar e moldar os membros do corpo para alcançar a habilidade para a forma certa de cada asana.

É necessário conhecer a estrutura, o processo e a função de um asana e como isto interage com o corpo, mente e alma. Em cada asana, é necessário sentir o fluxo de inteligência e consciência que flui da periferia do corpo para o centro  e do centro, para a periferia. Asana não é uma postura para ser feita com pressa ou mecanicamente.
 

Primeiramente, precisamos configurar a estrutura do asana e compreender os pontos básicos ou fundamentais moldando a estrutura anatômica do corpo através de ajustes.Moldamos o corpo para que ele se ajuste a estrutura do asana. Resistência e movimento deverão mover-se em conformidade. O peso deverá estar distribuído equilibradamente nos músculos, ossos, juntas em conjunto com a mente e a inteligência.

Lapide a jóia do corpo como um diamante criando espaço nos músculos e pele até que a rede do corpo ajuste-se no asana. Isto ajudará aos sentidos da percepção reconhecerem o trabalho dos órgãos da ação. Esta conjunção entre órgãos da ação e sentidos da percepção permite a compreensão subjetiva que dispara os reajustamentos intuitivos. Inicia-se assim a ação, reação, reflexo e ajustes corretos. O asana desta forma acontece através da consciência.
 

Quanto mais mergulhamos na sutileza das ações e sentimentos, mais desenvolvemos a sensibilidade na inteligência e consciência até que, corpo, mente e consciência aproximam-se da alma. A força da vida move-se então da pele para a alma e da alma, para a pele introduzindo uma nova luz de entendimento na percepção desta alma. A alma (purusha - Atman) evolui e a matéria (prakriti) involui e a partir desta relação, fundem-se na unidade, no estado de harmonia, equilíbrio e sensibilidade. O fazedor, o corpo e o asana tornam-se “Um” – três em um.
 

O sadhaka usa o corpo como um arco e o asana como uma flecha para atingir o alvo: o espírito (Atman)