A necessidade de disciplina e ética no Yoga
Eloisa Vargas


A Prática de aberturas intensas
na liberação de bloqueios
 

O asana conhecido com Low Lunge ou Anjaneyasana com os braços posicionados para trás, como abridores do peito, em vetores de força dirigidos para os pés, é o típico exemplo da atuação simultânea de abertura de peito e trabalho de quadril. É uma postura intensa que exige foco contínuo e muita perseverança.

Após a prática, poderá surgir certa sensibilidade nas virilhas e periféricos das articulações do ombro. Esta  sensibilidade após a prática, principalmente no início, é um efeito colateral com o qual convivemos por um período não superior a 48 horas. Percebemos que esta sensibilidade é  diferente daquele peso ou dor que sentimos (principalmente no pescoço) gerados pelas tensões. Observe que logo após a prática de aberturas do tórax, este "peso" no pescoço simplesmente não existe. Isto se deve ao fato de que, é necessário fixar o topo das costas para as  aberturas do peito,  ação esta que libera a região da cervical promovendo alongamento do pescoço e a conseqüente liberação da tensão na área.


 

O detalhe fundamental neste tipo de asana é a necessidade de equilibrar a ação de abertura em cima ( peito e ombros) com a ação de abertura em baixo ( pernas e  pélvis). Por isto trabalhamos  proporcionalmente ambas as áreas. Isto se deve ao princípio oriental de que um bloqueio em cima corresponde a um bloqueio em baixo ( eixo crânio- sacral). Se dirigirmos a prática apenas para "aberturas de peito", isto resultaria numa excessiva geração de energia na parte superior sem o devido escoamento e troca  na parte inferior. Este é o princípio da acupuntura oriental (não a ocidental) onde mapeia-se as áreas de bloqueio, explodem-se  estes pontos mas garante-se o escoamento da energia por outras áreas. O equilíbrio nas áreas trabalhadas é fundamental para a sensação de bem estar e para que a energia possa fluir sem interrupções.

 

Quanto mais bloqueados estamos, mais árduo se torna o trabalho. Um peito fechado bloqueia sentimentos que não são expressos por medo de sentir dor emocional. É através desta área que expressamos a quantidade de amor que estamos aptos a liberar e a metabolizar. Além disto, o plexo solar também faz o seu papel na repressão do medo gerando o sentimento desagradável conhecido por angústia. Quando abrimos estas áreas, a explosão de energia é muito intensa. Ora, pessoas bloqueadas nestas áreas costumam "resistir" mais e assim, gerar bem mais esforço o que resulta em cansaço físico uma vez que os limites não sejam respeitados.  Alguns alunos simplesmente desistem. Ou seja: nosso organismo físico e psíquico não tem condições de metabolizar as fortes correntes de energia que estão sendo geradas ocorrendo uma espécie de sobrecarga (como no fenômeno da corrente elétrica com as diferenças de voltagem). Neste caso, o recuo tático é o mais sábio recurso, pois significa consciência do próprio limite. O asana deve ser percorrido com consciência e percepção para que o corpo faça apenas aquilo a que está apto a fazer no instante em que está fazendo. A sabedoria, proveniente da consciência, é não forçar. Com a prática correta e a atitude correta, o asana se revelará ao seu tempo.

 Os colaterais

Os asanas de aberturas, por lidarem em profundidade com nossos bloqueios, geram, igualmente, sensibilidade física e emocional. Assim como as articulações ficam “sensíveis” , nosso organismo psíquico parece seguir este mesmo modelo.  A tolerância, num primeiro momento, parece torna-se "zero"! Simplesmente não toleramos a intromissão egoísta de outras pessoas e ficamos num estado de quase irritação. A energia emanada dos egoístas é como uma nuvem espinhenta que nos fere. Na verdade, é o nosso próprio egoísmo espelhado no outro potencializando a sensação. Reagimos, em certas ocasiões,  criando uma nuvem de indiferença  pretendendo evitar o confronto.  Há uma tendência natural em evitar a ação que possa fazer doer estas partes e quando o confronto é inevitável, enquanto ainda inexperientes, nos sentimos quase em pânico e em função disto, poderemos gerar respostas  violentas tanto emocionais quanto físicas. É necessário entender que a violência é gerada a partir de qualquer coisa que é temida. Ela se manifesta no ciclo instintivo de  lutar para se defender ou fugir para se poupar, o que, inevitavelmente, tratando-se da área emocional, provocará novos bloqueios.

Com a evolução da prática e a atitude correta, estes sintomas tendem a desaparecer porque, mesmo que tenhamos estes surtos de sensibilidade descontrolada, a consciência que emerge paralela à prática, nos abre novos horizontes no campo do autoconhecimento e progressivamente, por estarmos cientes de cada faceta do nosso ser, por estarmos cônscios  dos nossos próprios limites, nosso conteúdo psíquico será transformado.

 

Yamas e Niyamas de Patanjali- código de ética do yogin

 Em função de todos estes aspectos sutis que envolvem a pratica do Yoga, envolvendo todo o ser tanto físico como psíquico, torna-se a parte "filosófica" do Yoga  fundamental na educação e disciplina do praticante. Faz-se fundamental seguir preceitos básicos para que a prática não seja corrompida,  a auto estima não se transforme em orgulho, a resistência emocional não se transforme em intolerância e a força física em prepotência.

A liberação dos bloqueios não deixa de ser uma espécie de "caixa de Pandora" do nosso ser. Lidamos com forças até então conscientemente desconhecidas por nós. Na situação de dualidade em que nos encontramos, podemos tocar tanto a luz quanto a sombra de nós mesmos. É necessário que algo ajude a nos guiar neste caminho porque a liberação destes "poderes" deve, inevitavelmente, ser proporcional ao crescimento espiritual caso contrário, estamos embarcando "no outro lado" da coisa. São duas coisas que deverão se elevar juntas: o poder e a humildade.

Por isto, o suporte filosófico não pode deixar de ser abordado e ensinado em toda a boa prática do Yoga. O asthanga yoga de Patanjali , nos seus Yamas e Niyamas devem ser compreendidos e servirem como pontos de referência na conduta do yogin.

 

 

 

 

 

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