ASTHANGA YOGA de Patanjali

os oito braços do Yoga
comentários: Eloisa Vargas
pronúncia do sânscrito: Alexandre dos Santos


 

1) Yamas

Ahimsâ
- não-violência
pronúncia: arrímiss

Não sejas violento com as pessoas, com os animais e nem com a natureza mas antes de tudo, não sejas violento contigo mesmo.

Violentar é não aceitar algo como este algo é. Violência, é a tentativa de mudar, à força, pensamentos, limites, pessoas. Necessitamos perceber o quando somos violentos contra nós mesmos porque o homem violento contra si mesmo o será com os outros. 
Violentar é tentar mudar sem  compreender.
Em asana, a violência significa forçar e querer atingir metas estabelecidas sem a compreensão dos limites. É ultrapassar barreiras sem cuidado, sem sensibilidade, sem consciência. 


Satya  - verdade
pronúncia: sátyá 

Vive tua vida dentro dos princípios da verdade e no compromisso de ser sempre verdadeiro contigo mesmo. 

Ser verdadeiro é perceber nosso próprio estado, é perceber a verdade sobre nós mesmos seja ela qual for, sem fugas e nem justificativas. 

A verdade começa quando nos vemos tal qual somos e partir disto a percepção se desenvolve para as coisas que nos cercam e passamos a ver sem véus. Para isto, necessitamos aprender a manter a mente silenciosa para que se calem as vozes que estabelecem padrões, crenças e dogmas interferindo na percepção clara dos fatos.

Estar aberto para a verdade significa, antes de tudo, aprender a ouvir, aprender a fluir com os fatos e parar de lutar tentando adaptar aquilo que realmente vemos com aquilo que gostaríamos que fosse. A mente deverá estar quieta, sem o movimento do pensamento que faz ruídos e traz os ecos da memória. A verdade será percebida pelo ato de atenção, pela observação.
Em asana, Satya significa o estado do nosso próprio corpo assim como ele é e não como queremos que seja.


Asteya - não cobiça  
pronúncia: astêiá

Não deseja aquilo que não te pertence. Aprende a olhar sem desejar.

O olhar que apenas olha, não cobiça. O olhar quando acompanhado do pensamento desperta o desejo de posse e projeta a mente para a ação de obter.  A não obtenção do objeto do desejo, gera frustração.
Todas as coisas que são necessárias para nós virão para nossas mãos. Precisamos aprender a ter paciência e esperar a hora certa. O que obtemos fora da hora não nos pertence de verdade. Muitas vezes nos tornamos prisioneiros de nossas posses e perdemos nossa paz por isto. Também perdemos nossa paz quando desejamos coisas que estão fora do nosso alcance.

Em, asana, asteyá significa não pular etapas para obtenção de
resultados o que nos torna, de certa forma, ladrões de nós mesmos.

 
Brahmacarya - 
conter os excessos

pronúncia:brãama- tchária

Aprende a controlar os excessos cometidos pelo corpo e pela mente.

Este yama nos fala dos abusos que cometemos tanto fisicamente como mentalmente. Aqui é necessário o conhecimento dos limites. Nossos limites são nossos melhores mestres. Quando aceitamos e compreendemos o limite, estamos aptos para transcende-los. Limites não devem ser vencidos e sim, expandidos. 

Em alguns casos, precisamos nos impor certos limites e estes limites  estarão relacionados com o desejo, prazer e vícios.

Em asana, significa estar consciente através da percepção, do até quanto podemos nos aprofundar na pose sem forçar o corpo. É perceber quando estamos cansados antes de entrarmos em esgotamento. A prática dos asanas exige que nosso corpo esteja puro. 



Aparigraha - desapego
pronúncia:aparigrárra

Tudo o que fizeres na vida, deverá partir de um ato de desapego. O apego invalida toda a ação e a torna objeto do ego.

Desapego não significa doar seus bens e ir viver embaixo da ponte ou na solidão dos Himalaias. Desapego significa não acumular coisas desnecessárias tanto físicas quanto intelectuais. É bem mais difícil desapegar-se de uma idéia ou pensamento do que de objetos.

Apegos se manifestam por coisas, idéias, pessoas e propriedades. O apego é um reflexo do medo. O apego surge pela necessidade que temos em nos sentir seguros. Apego é medo e necessidade de segurança.

Em asana, o desapego deve ser a ação que se une ao desempenho. Se conseguirmos praticar de forma satisfatória algum asana que considerávamos uma espécie de desafio, devemos esquecer e não tomar isto como base para a próxima prática.
O asana deve ser novo a cada execução. O trabalho anterior precisa ser desvinculado da memória e desta forma, o asana nasce novo a cada dia.

 2) Niyamas

Shauca manter-se puro
pronúncia:sautchá

Mantém a pureza do corpo, dos pensamentos e das atitudes.

Muitos tratados de Yoga referem-se a Shauca como limpeza dos veículos físico e psicofísico.Manter a pureza não apenas do veículo físico mas também e principalmente manter a pureza da mente é essencial para uma prática autêntica do Yoga.
O corpo poderá  ser purificado através de técnicas de limpeza conhecidas como kriyas.
A mente se mantém  pura através de um estado de observação sem julgamento. Cria-se desta forma uma atitude de imparcialidade.
A mente deverá ser mantida em estado de pureza (inocência) durante o asana significando que esta mente deverá estar centrada, coesa, em estado de observação.  A inocência é um estado onde coisa alguma poderá atingir-nos. Desta forma, perceberemos a diferença entre ação e atrito. A mente pura faz com que o corpo aja, a mente inundada por pensamentos, concepções, opiniões, desejos, cria atrito e tensão e perde a capacidade de fluir com o momento.

Samtosha -  contentamento/ aceitação
pronúncia:samtôchá

Faz o que tens a fazer com alegria e desprendimento.

Samtosha é entregar-se a qualquer tarefa com dedicação e imparcialidade por mais que a tarefa nos desagrade. É a alegria de receber todas as coisas da vida como aprendizado. É desfrutar do momento presente desvinculado do passado e do futuro. Significa “não julgar” os fatos que nos acontecem para que possamos ser  conduzidos pelo fluxo da vida. Se precisamos fazer algo, devemos fazê-lo com alegria, com contentamento. Samtosha nos ensina a ver em cada coisa que nos acontece um motivo para o aprendizado.

Tapas disciplina  
pronúncia: tápas

Dedica-te com amor e paixão a tudo o que fazes.

Nada neste mundo poderá progredir sem disciplina. A disciplina é fundamental para o aprendizado. Disciplina gera perseverança, paciência , dedicação, aplicação, respeito e observância aos princípios fundamentais que embasam o aprendizado que se esta recebendo. Disciplina é criar espaço na nossa vida para que o Yoga seja praticado regularmente para que se torne o  centro do movimento da vida para que toda a ação externa parta deste centro. A disciplina manifesta-se em atitudes corretas  com relação ao Yoga, ao instrutor  e companheiros. Nada florescerá sem a disciplina que é o cuidado que necessitamos ter com as coisas as quais nos dedicamos. Mas a verdadeira disciplina não poderá ser alguma coisa imposta externamente ou por outrem. A verdadeira disciplina não é um ato de compulsão, de repressão e sim um ato de amor, de paixão e cuidado por aquilo que se faz.

"O que nos cativa
também nos guia e protege.
Apaixonadamente entregues

a algo que amamos, 
atraímos uma avalanche de magia
que nos aplaina o caminho, dá o prumo, argumenta,
discorda, carrega-nos consigo sobre os abismos,
os medos, as dúvidas."  

(Richard Bach - De A ponte para o sempre)

Svâdhyâya - estudo 
pronúncia:suádiáiá 

Torna-te um estudante de ti mesmo através da observação, e descobre em ti o teu verdadeiro ser.

Disposição permanente para o aprendizado do novo. Disposição para a mudança. É a atitude e a postura de estar sempre, em primeiro lugar, aprendendo a auto conhecer-se. Este conceito envolve também a consciência de que todo o aprendizado, se for benéfico para o ser humano, deverá, antes de tudo, liberta-lo. Tudo que aprisiona o homem deve ser descartado.

 
 

Isvara pranidhâna - rendição incondicional 
pronúncia:ichuára pranidâna

Entrega teu corpo e tua alma incondicionalmente ao Poder Superior que te guia e ampara. 

Isvara Pranidhana  é a fé desprovida de crenças, é a a
titude mental de desprendimento total de si mesmo, é a  confiança na existência e na sabedoria de algo maior do que o nosso próprio “eu” que nos conduz, sempre, para as melhores situações e condições.

Neste ato incondicionado de entrega que ultrapassa as barreiras do ego, bloqueios desapareçam, abrimos o nosso ser que se conecta definitivamente com o Sagrado. Neste estado, onde as ponderações racionais da mente não existem, permitimos que os mecanismos naturais de cura entrem em funcionamento desfazendo os bloqueios e promovendo o retorno ao equilíbrio.


A vida ou o fluxo natural de Vida nos guia sempre pelos caminhos do aprendizado e este caminho não necessita ser trilhado com dor. A dor e o sofrimento são resultados da resistência contra os fatos.  

Este anga é praticado na abertura da aula (Puja) e no seu término (Shavásana). No Puja, você eleva o pensamento e conecta-se com as forças cósmicas de luz para que estas orientem sua prática. Em Shavásana, você se rende incondicionalmente às mãos de “Deus” num ato de entrega total. Neste caso, a “fé” é um ato de confiança.


3) Asanas - ássanas

Educa o teu corpo dentro dos princípios de yama e niyama para que ele se torne um instrumento para a tua conexão com o sagrado. Para que as doenças não te aflijam, para que a beleza da forma adorne a beleza do conteúdo, para que te tornes leve como os pássaros e ágil como os peixes tornando-te assim, um templo digno para a morada do espírito.

Os asanas existem tal como são há milhares de anos. São perfeitos em si mesmos e não podem ser alterados. Os asanas atuam de forma subjacente no nosso corpo provocando profundas modificações psico-físicas. Em hatha yoga, são de grande importância. Hatha Yoga visa o auto conhecimento e a ferrramenta que se utiliza para este processo, é o corpo. Através da prática dos asanas, nosso corpo é desbloqueado para a percepção. Esta percepção será desenvolvida gradualmente produzindo auto conhecimento. Muito se tem lido sobre os asanas mas, até hoje, ninguém pode afirmar com exatidão científica, qual o  mecanismo completo da sua ação sobre o ser humano. Sabe-se que, enquanto a prática avança, profundas modificações de ordem física e psicológica ocorrem. Por isto, precisamos entender a "forma" perfeita do asana através do alinhamento, do equilíbrio, da busca do centro de gravidade e da direção. Em Hatha Yoga, este alinhamento em asana é fundamental para que as funções biomecânicas sejam utilizadas em sua plenitude despertando a inteligência natural e inerente que o corpo possui.

 

4) Pranayama - prânáyâmá

Aprende a conectar a respiração aos teus movimentos, ações e pensamentos.  

A vida da postura é a respiração. É através dela que o asana flui e acontece. A respiração nos move - move o ásana. O corpo pulsa, flui e reflui ao ritmo da respiração. 
Você não respira da mesma forma que outra pessoa respira. Para que a respiração possa evoluir ao ponto de tornar-se dominada por você, anos de muita prática serão necessários. Se a respiração é vida, erros na forma de respirar poderão significar o contrário. Técnicas respiratórias avançadas só podem ser ensinadas por pessoas altamente qualificadas e você jamais deverá tentar aprender isto pelos livros. 

Nas palavras de yengar 

" 1) Assim como um pós graduação depende da capacidade e da disciplina adquiridas em dominar o assunto no qual se graduou, o treinamento em Pranayama exige o domínio dos asanas assim como a força e a disciplina derivadas dele.

2) A aptidão do aspirante para treinar e progredir no Pranayama deve ser avaliada por um mestre experiente e é essencial sua supervisão.

3) Ferramentas pneumáticas conseguem cortas as rochas mais duras. No Pranayama, o yogui usa seus pulmões como ferramenta pneumáticas. Se ferramentas pneumáticas não forem usadas adequadamente, destroem a
ferramenta e a pessoa que as utiliza. No Pranayama, acontece o mesmo."

 5) Pratyahara - prátiarrára

Aprende a fluir com tudo o que te cerca de tal forma que conseguirás te abster dos próprios sentidos sensoriais quando isto for necessário. Assim, ouvirás o silêncio do universo em meio a batalha e conseguirás permanecer em paz em meio ao tumulto.

Este anga muitas vezes é pouco compreendido através das explicações encontradas nos tratados. Prefiro entende-lo como: abstração dos sentidos sensoriais para que a percepção profunda possa emergir. Assim, o conflito externo passa a não ser obstáculo (atrito) uma vez que os sentidos passam a agir de forma integral e não pessoal. Não é o “ego” que sente e sim o organismo como um todo integrado e sinérgico.
Pratyahara capacita-nos a manter um estado de paz em qualquer circunstancia.

 6) Dharana - dá râ     "h" é aspirado

Aprende a focar tua mente, tua atenção e teu pensamento em um único objeto da tua escolha e este foco será poderoso como a luz coerente de um lazer.

Dharana é concentração. É o pré requisito para a observação e percepção. Nosso cérebro não consegue passar diretamente para um estado de não ação. Antes, precisamos da concentração como uma espécie de disciplina, como uma pista de decolagem que não será mais necessária durante o vôo mas o é para que o avião possa subir. A pista nada mais tem a ver com o vôo em si mas serviu de plataforma para que o avião pudesse voar. Da mesma forma, a meditação não é, em absoluto, concentração mas necessita desta como base de lançamento.

 7) Dhyana - dí- â-    o "h" é aspirado

Pelo poder da atenção completa, ingressarás em outro estado mental onde o silêncio é o portal para a conexão final com a fonte da sabedoria plena. 

O silêncio é o estado da meditação onde não há desejo, compulsão, dor, alegria, sofrimento, prazer. A personalidade não penetra este portal
.

 8) Samadhi - samád-rí 

Comunhão completa com a Fonte, estado de união plena ( Sagrado), de Graça, Uno.  
 
Existe um  lugar no Universo, 
que é de paz, alegria, amor e sabedoria
Existe um lugar em ti
onde todo este  universo habita...
E quando tu estas neste lugar em ti
E eu estou neste lugar em mim
Nós somos Um!
Namaste!

 

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