Limites e superação
por Eloisa Vargas
diálogos com Ricardo A.Arnt

"Nem tudo que é enfrentado pode ser resolvido, mas nada pode ser resolvido se não for enfrentado."
 

Se realmente conhecemos à nós mesmos, jamais entraremos num confronto que possa nos exigir além da capacidade que temos no momento. A falta deste conhecimento, muitas vezes, nos leva a confrontos desnecessários onde, inevitavelmente, o retorno será a frustração. O auto conhecimento é a dose certa de investimento, é saber-se capaz de enfrentar a demanda sem riscos de "lesões" em todos os sentidos. Conhecer os limites é o ponto de partida para a superação destes próprios limites. Conhecer os limites é Yoga, é a atitude subjacente à ação. Neste ponto de vista, o enfrentamento não ocorre no sentido do choque uma vez que o limite é dissolvido ou, expandido para mais longe. É como demarcar fronteiras expandindo-as e aumentando o território nesta expansão. O limite ( a fronteira) existe, ainda, mas o território expandiu-se, aumentou.


Conhecer e respeitar seus próprios limites significa sabedoria adquirida e, paradoxalmente, é a plataforma de lançamento para vencer estes próprios limites. O conhecimento do limite, já contém em si mesmo, o princípio da sua superação. A ação de respeitar os limites, é o cerne da filosofia oriental , muito difícil de compreender para a mente ocidental que, desconhecendo o limite, lança-se á "meta", ao "alvo" sem saber onde está pisando. Ilustrando este pensamento, a metáfora da raposa que caminha no gelo fino é perfeita. Os orientais dizem que " devemos ser cautelosos como uma raposa que caminha no gelo fino, sondando cada palmo do gelo a ser atravessado. Assim ela não rompe a fina camada e não molha nem mesmo a cauda". ( I CHING- o livro das mutações)

Em yoga, o princípio é o mesmo. Uma postura, ou um ásana em nomenclatura sânscrita, nunca deve ser uma meta a atingir. O ásana é um caminho a percorrer em suaves estágios, medindo cada passo, sentindo cada movimento que deverá estar coordenado com a respiração. A busca da meta, de algo a ser atingido, por si só gera tensão portanto, a verdadeira yoga é praticada sem o desejo de atingir a meta e sim, com a disciplina e a humildade de percorrer etapas. Nestas etapas, aplicamos o princípio oriental do avanço e do recuo, do faz e do não faz. Nestes avanços e recuos, checamos o terreno, estabelecemos nossos limites e avançamos em terreno seguro. 

Para que possamos estar nestas condições, entra o outro fator preponderante nesta prática: o silêncio da mente onde não se escuta mais a voz do ego exigindo o sucesso, clamando pela vitória. Silenciadas as vozes do desejo, passamos a ouvir nosso guia interior que nos conduz nos momentos de avanço e nos aconselha nos momentos de recuo. Desta forma, evitamos sobrecarregar articulações e músculos ao ponto de leva-los a um colapso provocando no momento uma queda e mais tarde, a dor de uma lesão com seus contrapontos emocionais de fracasso, frustração e infelicidade.

Este ensinamento durante a prática, é transportado para a nossa vida diária e aprendemos a "caminhar" na direção dos nossos objetivos ao contrário de "lutar/brigar" por eles. Percebem a diferença? Caminhar na direção de um objetivo não significa que precisemos "lutar"  pois a luta contém em si mesma um componente de violência, fruto do desejo. A luta impõem vencedores ou perdedores, motivos para júbilo ou frustração, geradores da infelicidade pois tanto um quanto o outro, são sentimentos fugazes. E aqui diferenciamos, apenas para conteúdo didático filosófico, as palavras vontade e desejo. Digamos que, a " vontade" é interna e vem do coração, o "desejo" é externo e vem do ego. Neste caso, a Vontade não nos pertence e desta forma se torna sagrada ( termo que significa unida ou una) e se manifesta através da ação que procede da não-ação. 

A "não-ação" não significa cruzar os braços e esperar que as coisas caiam do céu. Pelo contrário, a não-ação exige sabedoria, inteligência, disciplina para compreender que tudo nesta vida deverá vir da profunda, misteriosa e sagrada ordem interior. Precisamos apenas nos disciplinar e aprender a ouvir através do silêncio. Existem vários caminhos para isto, um deles é a prática do Yoga.
O que se faz externamente, se vai como um sopro de vento mas o que se faz através das ordens ditadas de dentro, é eterno.
Namaste
Eloisa

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